terça-feira, 28 de junho de 2011

Longa espera longa.



Meus sonhos me abalam por serem a única realidade que tenho, depois que já vivi com tanta intensidade eu só espero tu chegar pra me sentir melhor, pra me libertar dos meus demônios, eu sei, não deveria te responsabilizar por isso mas não tenho mais nada a fazer sobre isso.


Eu quero escolher a minha vida e não viver o que sobrar pra mim. Quero estar ao teu lado quando tuas lágrimas descerem achando que o mundo não passa disso e mais nada. Não passa do nosso amor confuso e inseguro um pelo outro. Dos nossos olhares aflitos no meio da noite, cheios de mundos a descer pelo rosto. Das nossas mãos firmes entrelaçadas infinitamente, tão esperançosas.

Queria chorar essa chuva toda pra nunca mais ter que chorar outra vez. E eu já vi o reflexo do meu rosto no espelho assim tantas e tantas vezes, quantas vezes mais vou precisar ver? Eu tenho certeza que eu não escolhi isso pra mim, eu imaginei as coisas tão diferentes, então agora eu sei que elas não se tornam o que a gente imagina.

Então eu sento todos os dias no meu canto desarrumado e cheio de tralhas velhas e me imagino em uma vida que eu possa sentir as coisas naturalmente. Depois eu volto pra minha realidade inventada e não faça nada além de esperar. Afinal a  vida toda é uma espera, por alguém, por uma hora, por um momento pra sorrirmos, um momento de descanso onde não sentimos mais a dor do dia, a dor da vida, a nossa própria dor.

Dor de viver, de sentir, viver, viver e nada mais.  E essa confusão vida, quando vai passar?

Naiana Cescon Lemes.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Preservo.



O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos pra naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Abismos marinhos, sargaços. Minhas mãos escorrem pelo teu peito, gramados batidos de Sol, poços claros. Alguma coisa então pára, as coisas param. Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui no fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho escuro, meia noite em ponto. Quero fazer um feitiço pra que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado.

Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não esta completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto. Fico tosco e você se assusta com minha boca faminta voraz desdentada de moleque mendigo pedindo esmola neste cruzamento aonde viemos dar.

A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça junto com o louco, o doente, o podre? Não evitaremos. Pois a cidade está podre, você sabe. Mas a cidade esta louca, você sabe. Sim a cidade está doente, você sabe. E o vírus caminha em nossas veias, companheiro.

Dois mil anos de lama, meu amigo. Tantos lixos atapetando as ruas que suportam nossos passos que nunca tiveram aonde ir. Chega em mim sem medo, toca meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz: -Vamos embora para um lugar limpo. Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas e nem conte a ninguém. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você. Nada mais importa. O resto? Ah, os restos são restos. E não importam. Mas seus livros, seus discos, quero perguntar, seus versos de rima rica? Mas meus livros, meus discos, meus versos de rima pobre? Não importa, não importa. Largo tudo. Venha comigo pra qualquer outro lugar. Triunfo, Tenerife, Paramaribo, Yokohama. Agora já. Peço e peço e não digo nada, mas peço peço diga, diga já, diga agora, diga assim.

Aqui parece que o tempo não passou, quero dividir meu olhar, desaprendi de ver sozinho e agora que tudo perdeu a magia, se magia houve, e havia, e não consigo mais ver nenhum anjo em você, pastor, mago, cigano, herói inter galáctico, argonauta, repescante, e agora que vejo apenas um rapaz dentro do qual a morte caminha inexorável, só não sabemos quando o golpe final, mas virá, cabelos tão negros, rosto quase quadrado, quase largo, quase pálido onde já começou a devastação, olhos perdidos, boca de naufrágio vermelho pesado sobre o escuro da barba malfeita, olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo leve, e vou dizendo longo sem pausa - gosto muito de você de você muito de você.

Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés pra contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consome cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe, mas foi só mais um engano? E quantos mais ainda restam na palma da minha mão?

Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com esta fome na boca, beber um copo de leite, molhar plantas, jogar fora jornais, tirar o pó de livros, arrumar discos, olhar paredes, ligar desligar a TV, ouvir Mozart para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo, acender velas, saliva tua guardada na minha boca, trocar lençóis, fazer a cama, procurar a mancha de esperma nos lençóis usados, agora está feito e foda-se, nada vale a pena, puxar cobertas, cobrir a cabeça, tudo vale a pena se a alma, você sabe, mas a alma existe mesmo? E quem garante? E quem se importa?

Apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca, reinventar no escuro do teu corpo de moço homem apertado contra meu corpo, apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonado, apavorado, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios, e amanhã não desisto. Te procuro em outro corpo, juro que um dia te encontro.
Não temos culpa. Tentei. Tentamos

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Como eu sou um girassol, você é meu sol



(Escrito dia 08 de Agosto de 2010)

Sempre achei o dia dos pais normais,  exeto pelo abraço forte e as poucas palavras que eu te digo, quase decoradas por ser sempre assim todos os anos. Me sinto mau por nunca poder te presentear materialmente, por isso quando te abraço tento passar carinho por ser a única coisa a te oferecer agora.

Pai, foi preciso estar longe agora, pra notar o quanto eu sinto por não poder te abraçar no teu dia. Por não poder te dizer pessoalmente Feliz Dias dos Pais. Sei que é sempre isso que tu ouve de mim todos os anos, mas eu sinto muito por nunca conseguir te dizer mais.
Por não conseguir dizer que eu te quero do meu lado a minha vida inteira, dizer que já tentei me imaginar sem ti do meu lado, e não consigo não chorar quando faço isso.  Dizer que tu é meu porto seguro, a minha certeza. 

Pai, sei que é demais isso que vou dizer agora, mas eu desejo todos os dias que eu vá antes. Antes que esses teus cabelos brancos não estejam mais aí, antes que não esteja mais a cúia do chimarrão encima da mesa e nem os teus foguinhos no inverno,  o teu copo de caipirinnha e o teu prato sujo de feijão quando lavo a louça pra mãe.  Coisas simples, mas que tem um significado enorme porque é tu que faz.

Obrigada pela boa educação, pelas chineladas que eu sempre mereci. Obrigada por me ensinar a gostar das corujas e a olhar as estrelas. Nunca te disse isso, mas a minha tatuagem de estrela que tenho no braço é você.  É pelas noites que tu dedicou a me contar historias e a todas as simpatias que tu fez comigo. Não sei o que tu pedia as estrelas quando estávamos  lá, mas eu via no teu olhar  que elas tinham um significado maior pra ti do que pras outras pessoas.  Se era  isso que tu queria me passar, obrigada, porque me sinto diferente quando olho pra elas, me sinto especial, é como se tu estivesse dentro delas, de todas elas, me dizendo que não importe o que aconteça tu vai estar sempre lá, antes do sol nascer e depois dos dias de chuva.

Obrigada por tudo MEU PAI. E desculpa por todo mau que te fiz sentir.
Da tua nítia.


"Eu tento me erguer às próprias custas e caio sempre nos seus braços.
Um pobre diabo é o que sou.
E eu jurei por Deus não morrer por amor e continuar a viver
Como eu sou um girassol, você é meu sol."