quarta-feira, 26 de maio de 2010

Se sou livre pra sentir, quero ser livre pra raciocinar!



Não sei se isso tudo ainda cabe aqui dentro de mim, não sei se já não banalizou ou então se já fiz o que eu tinha que fazer. Já senti o que eu tinha pra sentir. Se vi demais e já não tenho mais vontade ou  então é só mais uma das minhas fases. Já não vejo mais os meus marcadores de páginas disputando um com o outro no meu bidê. Mas eu ainda sinto, se é que isso te importa. 

Sentimentalismo em mulher é visto como aquele padrão, coisa que eu nunca me encaixei. Só porque eu não choro quando eu bebo, ou então se eu não digo eu te amo pras pessoas o tempo todo não quer dizer que eu não seja mulher, ou então que eu não sinta. Ah, quantas vezes ouvi isso e fiquei calada, com medo que a minha resposta afastasse de vez, o sentimento. 

Mas racionalismo também é sentimento. Acho que não vou tentar explicar, me perco na explicação. Como me perco quando o telefone toca. Ou então quando vejo o alfabeto. Alfabeto me lembra e muito. Agora estou aqui pensando se pior é tu que lê esse texto e nem sabe que é pra ti ou se sou eu por não te falar. Também, falar pra quê. Se não quero envolvimento profundo e  se acho que você não seria capaz de me oferecer a atenção que preciso quando estou na TPM, ou quando eu acordo de mau com meu rosto e não me olho no espelho pelo resto do dia. Ou então quando eu bebo demais e não choro, só engulo a seco mais um copo, por sentir coisas repentinas. Se acho que tu não seria capaz de me fazer diferente ou então que eu vou ser só mais uma. 

Penso isso até ouvir a tua voz ou ver aqueles teus cabelos crescendo. Até tu vir me cumprimentar sorrindo. Até eu dizer que sou fraca e não sei se consigo me afastar se alguém esbarrar em ti e tu vir parar nos meus braços. Até tu tomar a iniciativa do nada e se aproximar de leve, como quem quer tudo. Tudo que eu não quero pra mim, a não ser que seja contigo. E no momento seguinte eu já não quero mais nada. Nem mesmo o meu celular por perto.  É por essas coisas momentâneas que sinto que deixo meu celular em casa no final de semana seguinte, que continuo com o meu cabelo enrolado e que olho pra alguém o oposto de ti.

Porque se sou livre pra sentir, quero ser livre pra raciocinar.

Naiana Cescon Lemes 

quarta-feira, 19 de maio de 2010

aprenda a usar o silêncio



definição:
1. 
confiar = acreditar, depositar





Faz tempo que eu estou observando as coisas ao meu redor e hoje só posso confirmar minhas suspeitas. Mais da metade das angústias, frustrações e decepções das pessoas, são por conta da boca. Todo mundo já deve ter ouvido a expressão: "fala porque tem boca". Compreendo e vivencio isso mais do que eu gostaria.

Em um determinado momento da minha vida, não posso negar que de solidão, onde eu mesma era tudo que eu tinha, me conheci e me adaptei as minhas próprias conversas. Cheguei a um acordo comigo  mesma em relação a guardar as coisas, segurar pra mim e deu. Mudei minhas atitudes, meu comportamento e me adaptei a esse novo modo de pensar, a essa solidão que de certo modo me completava. Me afastei... Mas em compensação eu aprendi que quando queremos confiar em alguém, devemos apostar todas as fichas em si mesmo. Eu via muita coisa mudando, inclusive as pessoas se afastando e eu me aproximando de mim cada vez mais. Vi muita coisa dando certo. Tinha a impressão de que quando contamos nossos planos, desejos ou ideias, elas saem de nós, perdem as forças. Não sei se existe sentimento pior do que não ser reconhecido, de não ter os créditos porque outra pessoa está recebendo isso no teu lugar. 

Passei um bom tempo na minha, até aprender a parar de falar. Guardando meus planos, ocultando minhas escolhas. Eu perguntava e eu mesma respondia. Comecei a ler, ler muito, o tempo todo, engolia os livros um atrás do outro, queria respotas que não fossem minhas e que não fossem faladas. Tinham medo das músicas nacionais porque eu compreendia perfeitamente aquela língua, preferia as estrangeiras, não só pela língua mas também pelo ritmo: o bom e velho rock'n roll. Aos poucos fui perdendo o medo de mim mesma, dos pensamentos estranhos que eu tinha, me acostumei com o silêncio por fora e a barulheira por dentro. Usava a fala apenas por necessidade.

Apesar de todo esse "conhecimento", me enganei outra vez, confundi convivência com confiança, não sei por que achei que certas confissões da parte dos outros me traria segurança, talvez fosse bom acreditar novamente que ainda existem pessoas bem intencionadas. Confiava desconfiando, e agora nesse exato momento vejo que eu deveria ter apenas desconfiado. 

As pessoas falam, falam, falam o tempo todo e não me venham dizer que não querem dizer nada, porque elas querem dizer tudo e mais um pouco, querem é baixar as pessoas, querem falar mau, do teu cabelo, da tua roupas, do teu corpo... e se isso não existe elas inventam, pode ter certeza. Elas querem falar, só isso, não importa do que ou de quem. Acordam todos os dias pensando mal pra depois falarem mal. Isso deixou de ser um hábito, já virou necessidade. E o que elas ganham com isso? E tu que está lendo aí do outro lado da tela, já falo mal de alguém hoje? Porque temos plantado na nossa cabeça esse ato de falar e falar muito dos outros? Porque quando as pessoas olham uma pras outras as criticam mentalmente? - Porque acham que é uma competição em busca de algo que ninguém descobriu o que é, e destroem antes mesmo de saber. 

Talvez seja a busca da perfeição, talvez seja apenas um pouco de atenção. E pra isso elas tem que falar mal, baixar a qualidade e reputação das pessoas, pra ver se assim elas conseguem se convencer ou serem notadas. Mas vencer o que? Isso que me pergunto todos os dias, até onde as pessoas vão ir? Até quando as pessoas vão falar demais? Por isso tem tanta gente desconfiada no mundo.

Todos nós já fomos deixados pra trás algum dia, e por mais insignificante que tenha sido esse abandono, pode ter certeza de que 10% do teu confiar nos outros se foi, e te custa a voltar. Sabe por quê? Porque quando tu achar uma pessoa que tu conviva com ela a tempos e que depois de muitas provações ela te mostre que tu realmente possa confiar nela plenamente, tu não não vai mais ter os teus 100% confiar nos outros, porque outras pessoas arrancaram isso de ti de 10 em 10.

Aprenda a usar o silêncio ao teu favor.

Naiana Cescon Lemes 

sábado, 1 de maio de 2010

marcas


Cada final de semana que passa as minhas histórias vão aumentado, as marcas no corpo e na mente também. Não quero julgamento de ninguém. Ninguém quer. Mas se houver o que mais eu posso fazer? Eu quero me sentir viva, eu quero sentir o que eu tiver vontade e não me preocupar com o que os outros vão pensar se eu fiz algo que não se encaixe nos padrões de comportamento. 


Eu não me importo com o que as meninas com o cabelo longo e chapado falam dos meus cachos rebeldes e curtos. Não me incomoda toda a vez que saio mostrando as pernas explicar o significado da mancha roxa do meu joelho, porque só eu sei o quanto aquela marca significa e o quanto eu aprendi a suportá-la, acho que até a minha alma deve ter aquela marca no joelho, ou talvez ela já tivesse antes do meu corpo. 

Só eu sei quantos assuntos bons foram gerados por causa da marca. Só eu sei o quanto eu me aproximei da minha mãe, o quanto eu precisei do meu pai, o quanto o Benhur me animou pra que eu levantasse daquela cama e fosse assistir TV na sala. Só eu sei o quanto eu queria ter ido ver o Bruno tocar no Pub bem naquele final de semana. Só eu sei a paciência que eu precisei ter quando só uma perna funcionava. A coragem que eu precisei ter pra me olhar no espelho e ver meu rosto deformado. 

Sem falar do interesse e compreensão das pessoas quando eu recomecei a sair de casa e aprender a andar novamente. Do trauma que eu tinha de ver aqueles riscos brancos num asfalto que chamam de faixa de segurança, que não transmite segurança nenhuma. Das imagens que vinham na minha cabeça toda vez que eu deitava na cama. Dos vários curativos que o Pai me fazia, das meias que ele me botava depois do banho, das espiadas que ele me dava de madrugada pra ver se estava tudo bem, da angústia que eu via nos olhos dele toda vez que me via andando de muleta. 

Minha Mãe, sempre apavorada com algum movimento estranho que eu fazia com medo que eu caísse, dos passinhos curtos que ela tinha que dar ao meu lado quando saíamos, das massas folhadas que ela me trazia. Esperando, ela sempre estava me esperando. Realmente, só eu sei o quanto eu entendo o porque daquela marca, toda a vez que eu olho pra ela eu sinto vontade de viver, sinto vontade de sair e caminhar, só caminhar por aí. Talvez colocar uma saia e não ligar pros olhares. Porque é a minha marca e agora eu sei o quanto ela significa pra mim. Todo mundo tem a sua marca, talvez essa seja a minha.



Naiana Cescon Lemes